segunda-feira, 30 de novembro de 2020

MORTE

Os olhos se embriagam

com a pureza

da breve existência

da gota da chuva

que beija o solo e se desfaz.

Há uma certa pureza

em tocar as mãos gélidas da morte,

esperando que ela possa abrir

a cortina estrelada do universo,

onde o cosmos se senta

para contar as anedotas 

sobre planetas

que duram como bolhas de sabão;

Sobre como é divertido

ver o seu reflexo

no símbolo da ressureição:

A traseira do besouro

colecionador de esterco.

E a vida dos miseráveis 

que se matam sob o sol escaldante,

apesar de devorarem as entranhas

dos seus semelhantes,

eles temem a morte porque se esqueceram 

que a semente do fruto podre

amanhã será árvore 

e que a gota da chuva

um dia já foi mar.


André

terça-feira, 29 de setembro de 2020

À ALFORRIA DO ALZHEIMER

Quando a morte acariciar
as maçãs do teu rosto
E finalmente morder
o fruto pecaminoso 
Teus lábios moribundos e secos
beijarão as nuvens do céu
A língua em que trepida a voz seca
conhecerá o mais doce mel
Tuas cavidades se libertarão das sondas
Teu rosto sentirá a brisa do mar 
que o protegerá com os afagos das ondas. 
 
André

Depois de tantas visitas neste lugar,

a paz que se formava

em abraços e conchas do mar 

buscou carona no caos e em meteoros,

quando o humano cansou-se do amor

e o ego pétreo dominou seus olhos.

Seus braços, guindastes desnorteados

sedentos pelo sangue preto

do globo azulado.

Suas mãos são a cobiça

a transformar o tronco em clava,

como um anjo que usa seu dom 

para amputar as próprias asas.

Sua arte que encena o fim da dor,

embaixo das nuvens que choram

sobre o fogo devastador.

Para as estrelas

são mortalhas de algodão

sobre os filhos teus

que fazem da linha do tempo

um arame farpado

entrelaçado às costelas de deus.


Morto

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Antes de se esparifarem no chão

Os galhos das árvores acenam 

E lentamente

Suas folhas dizem "adeus"

E quem tentar decifrar o mundo

Um dia há de se cansar

Dos conselhos extraídos

Da leitura labial das flores

Da voz do vento

Das batidas do coração

E de tantos outros presentes

Que só os ingratos desconhecem.


Morto

terça-feira, 28 de julho de 2020

NOTAS SOBRE A VERDADE


A verdade envelhece e
oculta sua face carcomida.
Usa um capuz dourado sobre
um tecido colado em feridas secas.
Um véu estrelado cobre seu pescoço, 
ocultando hematomas e arranhões.

A verdade carrega um saco rústico,
amarrado aos seus dedos leprosos,
suas pontas se arrastam no chão
como se carregasse crucifixos pontiagudos.

A verdade tem voz rouca,
suas cavidades pressionam o fole
que mal pode apagar uma vela,
mas a potência de sua risada é
de uma criança que ri
quando o adulto esconde seu rosto.

Os que se aproximam da verdade
contam que seus bolsos estão cheios de cartas amassadas,
escritas com lápis de cor,
se referindo à inocência do amor.

A verdade é anêmica, sente fome e sede.
Sua pele é grampeada às costelas curvas como pernas de moscas.

Os dentes alojados no estômago da verdade, assim como seus joelhos esfolados,
registram suas múltiplas quedas.

A verdade vagueia nas beiras dos córregos vermelhos,
trincados no globo ocular daqueles que se arrependem.

A verdade vê seu reflexo nos espelhos quebrados, nas cicatrizes dos punhos, nas portas dos orfanatos.

A verdade mora na sombra da árvore sobre o túmulo do ego.

A verdade rega suas flores com a chuva.

A verdade morre todos os dias,
mas ressuscita depois do gozo e do pranto.

A verdade renasce na carne ensanguentada, nas batidas do coração, na saliva do esfomeado, no agradecimento sincero e, sobretudo, nos pedidos de perdão.

A verdade é a única que pode libertar.

Morto

quarta-feira, 22 de julho de 2020

POEMA SOBRE UM FRAGMENTO DO DESCONHECIDO

As mãos do amor

esfarelam universos,

e tudo é tão distante

do humano controverso.


Os olhos do amor 

se liquefazem em cores vibrantes,

e o mundo é um rancor opaco

na visão do humano errante.


Os poros do amor

se racham em cânions de luz,

mas todas as vidas são valas

que o progresso humano reduz.


Os ouvidos do amor

absorvem toda dor,

mas crê que tudo é comprado

o humano com seu sangue e suor.


A voz do amor

é pura compreensão,

mas a mentira é confortável

para o humano que berra a ilusão.


A alma do amor

é gratidão e sabedoria,

reside em todos os corações

à espera de florescer um dia.


André


quinta-feira, 16 de julho de 2020


Como cuidar da flor
Que a natureza me deu?
Ela me respondeu:

Falar
como o som do mar:
sereno.

Acariciar
como a brisa do vento:
intenso.

Abraçar
Como a luz do sol:
brando.



Morto

sábado, 11 de julho de 2020

SERVIR

Não te preocupes tanto
Se outros te esqueceram.

O Sol aquece a vida
Em divino silencio.

Toda raiz se esconde
Para ofertar-te as flores.

A fonte que te ampara
Não pergunta quem és.

Servir é um privilegio
Que o Céu te concedeu.

Quando devas surgir,
Deus te revelará.

 Mensagem recebida por Chico Xavier, do livro "Amor e Luz" voltar


quinta-feira, 9 de julho de 2020

LÁGRIMA

Lágrima é mais que gota d'água,
é jato abrasivo.
Trinca coração de mármore,
corta ego de granito.

Lágrima é mais que lava,
é fogo impávido.
Pulveriza culpa de ardósia,
lapida amor de calcário.

Lágrima é mais que fagulha,
é chama invisível.
Esculpe crença de rochedo,
derrete remorso de vidro.

Lágrima é pedaço do mar,
é poeira de vulcão;
Estrela que guia o Karma,
flama que queima a ilusão.


Morto

quarta-feira, 8 de julho de 2020

CEGO

O pior cego
É aquele que não quer ver

Talvez porque
Seus olhos estejam cansados

Talvez porque
Já tenha visto demais

domingo, 28 de junho de 2020

PRAGA URBANA

Caminho impacientemente
Busco espaço nas calçadas
Mesmo fatiando o aglomerado
Sobrevivo às canções de venda
E ao hálito pútrido das falas cheias de preconceito
Mas é inútil ignorar as mordidas
E os latidos da cadela luso-italiana
Que há tempos se exalta sobre essas terras
Pessoas uniformizadas discutem o clima e o amor
Forjam suas frustrações em ferro fajuto:
Desculpas na tentativa de acorrentá-lo
Chicoteados pelo som que ecoa nos quarteirões
Todos são conduzidos por grandes letreiros
Que sugerem o que supostamente é bom e melhor
Então engulo meu pavor, um vômito azedo
O alívio surge nos pombos entre a multidão
Eles devoram os restos de qualquer coisa
Interessados apenas na imundície
Esbanjam o quanto temos em comum
Mas desconhecem nossos sonhos e aflições
Nossa excelência em sermos
Fábricas de pudores e rótulos
Nós, a legítima praga urbana.

Morto







sexta-feira, 26 de junho de 2020

NOTA

Enxugo tua face com estas palavras.
Elas não acalentarão a tua alma,
pois a desilusão é o vento frio e cortante
que guia até o sol complacente.
Uso-as para te dizer que o amor não existe;
não desta maneira que insiste em cultivá-lo,
plantando-o em solo infértil.
Por inúmeras vezes também caminhei neste deserto,
e sentir meus pés queimando parecia ser um preço pífio a se pagar.
Mas o tempo puniu a minha insistência febril.
Ensinou o amor como essência da natureza,
amor de raízes sólidas.
Amor, a flor oriunda da semente inesperada,
que desistiu de ser regada por lágrimas
mas que germinou ao ser tocada pelo orvalho do carinho, da empatia.
Amor, a quimera que o poeta não pôde ousar.
A mão que afaga
e se nega a apedrejar.

Morto

quinta-feira, 11 de junho de 2020

MOFO


O mofo está satisfeito
Com a ausência de luz
Se sente abraçado
Por ser essencial e cultivar
Tantos pensamentos microscópicos
Crescer, casar, tornar-se bolor 
Fazer tour pelos lábios
Conhecer palato e salivas
Enviar seus filhos esporos
Para viagens nasais
Ser reconhecido pelos ácaros


O mofo detesta o ar fresco
A água límpida e a luz do sol
Se conforma com a lágrima caída
Que torna o ambiente úmido 
Perfeito e confortável
A tal limpeza da autorreflexão
É nociva, assim como
Assumir as possíveis tonalidades
Verdes de outros mofos


Onde não há movimento
Onde o ócio reside
Onde o contato evita
Surge o mofo
Contando a piada
Da vida parada

Alguém ri


Morto

terça-feira, 21 de abril de 2020





— Hilda Hist, no livro "Do Desejo".

domingo, 19 de abril de 2020

NECROPOESIA

Poesia é ficção? Poesia é confissão?
Pois então...



Esquartejei um poema
Ao decepa-lo
Comecei pela jugular
Pois na introdução
Se encontravam as frases doces

Sequei o suor em minha testa
O rigor mortis das palavras
Formando discursos indiretos
Me causavam certa fadiga
Fui incentivado pelos abutres
Que triangulavam o céu
Com sua fome de prosa, poema
Poesia de segunda

Dissecar orgãos vistosos
Cheios de metáforas
Arrancar suas tripas com os dentes
Sentir as rimas esguichando
Tantas mentiras, tantas mentiras
Era sentir o fluído da vida

Depois de estripado
Um certo odor,
Um ruído incomodava:
Eu, eu, eu 
Pronome preso no esfíncter
Tumor do ego não diagnosticado
Principalmente em poemas vivos

Quando não podia mais soletrar
Fui poupando alguns tendões
Músculos de ódio
Cartilagens de paixão
Era o fim,
assim como eu
A navalha estava cega.



Morto



sexta-feira, 17 de abril de 2020

Amig0s

A vida social
É um atleta disputando a corrida
Na linha de chegada
Rasgou a fita e disse:
-Eu estou cansado!




Morto

MORTO(S)

Estão mortos, 
Estão todos mortos
Enterrados com suas histórias de amor
Contemplam agora as flores do além:
abraços-não-dados
Mas, antes de serem degolados
pelo ponteiro do relógio
Admiravam a complexidade humana
O dom de se sentirem menos dignos
que fungos e cupins.
Culpavam Mercúrio
Pelo redemoinho de ideias
Que depois se condensariam
Em torrenciais de vogais.
E os que aqui ficaram
Acorrentados aos aspectos forenses da morte
Encaixotam as heranças deixadas,
Poesias, rabiscos
Artes Inúteis aos seus olhos
Que nada mais faziam do que retirar
Escamas e mais escamas da dor
Além da péssima analogia à terra
que o suposto autor fazia
Ao descrever a erosão em seu peito.
Quem poderia acreditar
Que o amor cravou as unhas
Em seu couro cabeludo, obrigando-o
A engolir pétalas de flores amarelas?
Os mortos também deixaram
Memórias descritas em tinta peculiar
invisíveis para alguns - leia-se lágrimas;
melodias dissonantes e receitas
De como triturar sentimentos
Compor gargalhadas em dó maior
Para o óbito diário
De todas as suas personas

Morto

quarta-feira, 8 de abril de 2020

SINGULAR (INCOMPLETO)

Um farol para o barco
Uma prece para o pranto
Um sol para a planta
Uma lanterna para o espanto

Um desejo para o artista
Uma esperança para o infante
Um pedido para o teísta
Uma quimera para a amante

Um universo para uma sílaba
Uma semente para a terra
Um amor para um dia
Uma eternidade para o poeta

Morto

domingo, 5 de abril de 2020

EMPATIOFOBIA

Já não podes conviver
com a própria sombra.
O outro não existe;
amor é colírio inútil
para tua cegueira.
Reflete apenas
sobre a própria chaga
"Ah, que mundo horrível
Roubaram-lhe a alma!"
-balbuciam os fármacos bicolores
em teus ouvidos, todas as noites.
Tuas entranhas decoram fluídos alheios,
combústíveis do ego monstro
que lhe devora de dentro para fora.
E assim, insiste em rastejar,
ignorando que és carrasco, réu
e guilhotina.


Morto

sábado, 4 de abril de 2020

RECLUSOS

Valhala tupi,
valas e mais valas.
A terra esburacada
descansa em quarentena.
Em suas posições,
moscas e vermes
seduzidos pela cadaverina,
aguardam o aval
do tempo carniceiro:
1,2,3 (mil)
e jaz

quarta-feira, 1 de abril de 2020

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

CARNA VAL

Depois do fogo
Incendio do carnaval
Acordamos na quarta-feira
De cinzas


Morto

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

ARES PLATÔNICOS


A terra seca
É apaixonada pela chuva
Mas a chuva não vem
Os galhos secos são arrebatados
Pelo vento tórrido
E assim,
As lamúrias da terra
Tornam-se rachaduras
Abandona a utopia
Aceita seu destino
De ser para sempre
Turva ao olho humano
E nada mais
Do que a ambição
De um sol carrasco

morto

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

AINDA RESISTE ARTE

Ainda existe arte
Quando tudo desmorona:

Há uma fresta entre
os escombros
Neste vão retangular
Pode-se enxergar
Uma trilha feita de migalhas de afeto
Que leva a um deserto
De areia vermelha como sangue
Onde crianças engravatadas
Brincam com balões de oxigênio
Cédulas de couro
E foices de papel
Dançam ao som confuso
Oriundo de um instrumento confuso
Um coração enferrujado
Supostamente danificado
Pelo vômito de nuvens bêbadas
E suas lágrimas de rancor

Mas isso é coisa de outros universos
Basta unir versos
Para recordar
Que ainda existe arte
Quando tudo desmorona


Morto

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

SENTENÇA

O amor me colocou
no seu coração,
mas agora o ódio
não me tira de lá.
Aguardo pela liberdade
da indiferença.

morto

CRUEL

Condenado por todos
Será aquele
Que conhecer a hipocrisia
Detrás do coração puro 
do pacifista.
Este, que usa a dor dos injustiçados
Não poupa em se armar do trivial
E transformar num punhal
A estatística

morto