quarta-feira, 30 de novembro de 2016

PRECE DOS MALDITOS À NATUREZA

Alameda verde
perdoa aquele a quem o sol desdenha
pois uma rotina fúnebre
(feita de trilhas e traços tortos)
às vezes é o que a vida desenha.

Abóbada Celeste
Absolve aquele que cerra os ouvidos
diante da canção dos pássaros
Seus murmúrios solfejam entre os ruídos
das folhas secas sob seus sapatos.

Que o santo caos
-que ora trinca a terra, ora cria a lama-
permita a desordem natural
dos que abraçam a escuridão
e acendem sua própria chama.



mUERT0

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

VERDADES DO EGO SISTEMA

É tarde, as luzes amarelam a rua
Entre as risadas e os ruídos dos copos
Ouço alguém dizer "verdades".
Sua língua tropeça na pronúncia das tais teorias
mas ainda há firmeza no que diz.
Ouço os contos que descascam o mundo

como um fruto cujo o sumo é amargo
um fruto de sementes ocas, sem esperança
Ouço teorias sólidas

criadas por almas alvas de olhos imundos
-Ou vivemos num mundo de almas imundas?-
Se é assim, por que há recomeço depois do fim?
Por que há recomeço?
Esta rua amarelada é testemunha:
São tantas palavras

metralhadas pelos papagaios diplomados
que ecoam as verdades dos que se foram.
Mas eu já li isso antes
Já ouvi isso antes
Conheço a podridão
dentro de mim
dentro de nós
Mas eu prefiro a minha ilusão

conquistada vivendo verdades e mentiras
Eu não tenho argumentos
mas gostaria que esses que buscam a verdade
Pudessem admirar os olhos de um bebê
É um brilho único, uma verdade que posso ver

Uma  poesia que posso sentir.

Talvez eu seja mais um cego
que quando vê a mão que se estende
não pensa se ela já agrediu
porque é como a vida a apresentou para mim
naquele breve momento
Quando eu vejo a rua amarelada sendo machucada
pelas cinzas e cacos; pelo lixo humano
Sei que amanhã ela estará limpa
Sei que ela já esteve limpa
São as verdades da rua
Eu as conheço 

então eu posso escolher
qual eu devo contemplar.




André Muerto

sexta-feira, 8 de abril de 2016

ODE AO ARTISTA

Mergulharemos nossas mãos em cores frias e quentes.
(para pintar os olhos dos arrogantes e dementes)
Encenaremos o amor- a mais bela dramaturgia!
(para semear risos e lágrimas; depois colher poesia)
Cantaremos a liberdade na rua cinzenta.
(para harmonizar a vida e ensurdecer a indiferença)
Restauraremos com pureza a natureza morta.
(para florescer esperança aos que fecharam-nos as portas)
Registraremos momentos como eternos fragmentos.
(para que o foco do cotidiano não distorça os sentimentos)
Esculpiremos a verdade, entalharemos a paixão.
Desenharemos sobre a mentira:

Um rascunho de nação!

ODE AO ARTISTA

Mergulharemos nossas mãos em cores frias e quentes
para pintar os olhos dos arrogantes e dementes.
Encenaremos o amor- a mais bela dramaturgia
para semear risos e lágrimas; depois colher poesia.
Cantaremos a liberdade na rua cinzenta
para harmonizar a vida e ensurdecer a indiferença.
Restauraremos com pureza a natureza morta
para florescer esperança aos que fecharam-nos as portas.
Registraremos momentos como eternos fragmentos
para que o foco do cotidiano não distorça os sentimentos.
Esculpiremos a verdade, entalharemos a paixão
Desenharemos sobre a mentira: um rascunho de nação.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

"Você tem de aprender a sair da mesa quando o amor já não está sendo servido."


Charles Aznavour

segunda-feira, 28 de março de 2016

PAIXÃO

Sussurros denunciam um incêndio
Sua brisa ofegante queima os ouvidos
A tenra melodia que amortece os nervos
vem da breve sinfonia de dois corpos em atrito

Com seus lábios úmidos- porém sedentos
Com suas veias dilatadas - pulsando lava
Poros se encharcam pelo febril sentimento
De amor e fúria, fervendo a alma

 
Limite e discernimento reduzidos a cinzas
O espaço e o tempo drasticamente incinerados
Restarão memórias de uma história que finda
Com peitos alojando corações carbonizados



mUERTO

terça-feira, 22 de março de 2016

A MENINA E O PÁSSARO ENCANTADO

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
* * *
Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…

-Rubem Alves

quarta-feira, 16 de março de 2016

MORS CIVILIS


"Atenção,
Máquinas biológicas
e sedentas por afeto:
Fujam das rugas, 
fujam das ruas.
Sintam-se protegidos 
em caixas de concreto."
Mostrou a luz televisiva
da mentira quase crua.


Muerto

quinta-feira, 10 de março de 2016

AUTO SUFICIENTE

Mortos em suas latas automotivas
Tumbas arrojadas em branco e prata
Seus cárceres questionam a razão das feridas:
O nó na garganta ou o nó da gravata?


mUERTO

terça-feira, 8 de março de 2016

INTEIRO



Não busque sua metade
quando você não é


muert0
"Minha avó tinha uma ilha. Nada para se vangloriar. Dava-se uma volta nela em uma hora. Mas ainda assim, era um paraíso para nós. Um verão, fizemos uma visita... e descobrimos que o lugar estava infestado de ratos! Chegaram num barco de pesca e passaram a se alimentar de coco. Então, como se livra dos ratos de uma ilha? Minha avó me ensinou: Enterramos um barril e deixamos ele aberto, e depois colocamos um coco como isca... aí os ratos foram em busca do coco, e... caíram no barril.
Em um mês prendemos todos os ratos. Mas o que fazemos depois? Jogamos o barril no oceano? Queimamos ele? Não... Deixamos ele ali... os ratos começam a sentir fome. E um a um... começam a se devorar... até que só restam dois, os dois sobreviventes. E depois disso os matamos? Não. Pegamos eles e os soltamos nas árvores. Mas agora eles não comem mais coco. Agora eles só comem rato. Mudamos a natureza deles."


trecho de "operação skyfall -007"

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

QUAL ILUSÃO TE VISITA?

O prazer frita o suor da carne
Abocanha um pedaço do tempo
Sufoca sem fazer alarde
Parte de um suicídio lento

André Muert0

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Palavras ecoam
Devastam mundos

Envenenam memórias
Alteram rumos

Desconstroem histórias.
Que o bálsamo seja a quimera

e o alívio seja a incerteza
E, quando os olhos virem erros,
que o coração veja fraqueza.



Muerto

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

"Perseguimos objetivos sem grande valor e fugimos dos medos sem os querer enfrentar, mantemo-nos ocupados com coisas sem grande importância… até que um dia a realidade nos apanha, por um acidente qualquer que nos obriga a parar e a conviver com a verdade de nós mesmos. Surgimos então diante de nós, tal como somos… e damos então conta de que poderíamos ser melhores. Bem melhores."

José Luis Nunes Martins