quarta-feira, 26 de outubro de 2011

AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 25 de outubro de 2011

POEMA EM LINHA RETA

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
(…)
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Fernando Pessoa

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A UM CARNEIRO MORTO



Misericordiosíssimo carneiro
Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio
E em todo aquele que for seu herdeiro!


Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!


Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos – fontes de perdão – perdoaram!


Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia do Juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!


Augusto dos Anjos

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

DOIS LOBOS

Um índo cherokee falou a seu neto sobre uma batalha que se desenrolava dentro de si:
           "Meu filho, disse ele, "a vida é vivida entre dois lobos. Um é cheio de ira, inveja, dor, autopiedade, inferioridade, e superioridade. O outro é pleno de alegria, paz, esperança, humildade, bondade e fé".
            O neto perguntou ao avô: "Qual lobo vence?"
            O velho simplesmente lhe respondeu: " O que eu alimento".


 Nancy Mellon

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

TODO DIA


O dia é teu também, ateu.
Ateu no dia que convém;
Ateu que um dia disse amém!
Ateu num dia sem desdém,
é um que o dia vai além.


André Muert0



O essencial é saber ver, mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida, isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender.
Eu prefiro despir-me do que aprendi, eu procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desembrulhar-me e ser eu.

(Alberto Caeiro)



sábado, 1 de outubro de 2011

FELIPE


Corremos como cavalos selvagens.
Às vezes corremos sem saber para onde, seguindo nossos sentimentos...
E assim como os cavalos, sentimos quando alguém está com medo.
Por dentro daquele olhar fixo e, talvez desinteressado,  predominam incontáveis universos
São presentes, maravilhas que uma vida (bem vinda) traz consigo
Porém, numa carruagem de desavenças, nos passos que fraquejam num caminho
cujo o rumo é o precipício,
surge uma luz,  uma vida.
Tão bela e tão certa quanto as estações do ano;
Trazendo consigo a beleza da primavera, em pleno inverno.
Ah! a pureza dos teus gestos como bálsamo para as minhas feridas!
Distante de mim, mas dentro do meu coração.
Você, meu amor, que agora inspira sorrisos e expira pureza;
Como dizer que você é meu, se eu sou todo seu?
Nós, aqui de fora
Os pseudos donos das regras e das verdades;
Nós ainda corremos como cavalos selvagens
E você, “O que ama cavalos”- não permita que as rédeas da ignorância o prendam
O amor está em você, porque, como você, ele surge como uma luz
Que elimina a escuridão e guia nossos passos
Que torna o nosso caminho mais belo
Que talvez  um dia, traga de volta essa pureza 
Que trouxemos quando chegamos, mas
que perdemos enquanto caminhamos.

André Muert0