sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

DEGRAU DOS MONSTROS

Ouço o ranger dos dentes
A alma socando o ambiente
Engolindo a vida e o veneno
Dessa fuga velha e doente
Que me encara e desmente
As mentiras dos vermes e dos deuses

Porque a face arde em cada queda
e nela posso ver humanidade
E se um sorriso se acende como uma vela
Será uma luz pela eternidade

Meu amor, não questione a morte,
cuidado com os passos do mundo
Como a vida é certa entre dois lábios
a morte é certa nos próximos segundos
.


André Muerto

VENDA TE

Placas por toda a parte
escarrando em nossa face
que eles realizam o sonho plástico
que eles vendem felicidade

Mas depois dessa tempestade
estaremos sujos de lama
Enterrados com a podridão
do dinheiro sujo e fama


André Muerto

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

AS ESMOLAS DE UM PRETÉRITO IMPERFEITO

Provas de amor manchadas em papéis
As cores desbotadas- marcas que o tempo não desfez
Que sentimento é esse, que já atravessou o infinito
e hoje devora a vida, como um predador faminto?

Entre pensamentos vagos e perdidos,
parece longa a caminhada no mundo cinza dos desiludidos.

É um medo de morrer todo dia, de abrir uma nova ferida.
Um medo de perder o fôlego e procurar outra saída;
de sentir a ânsia, de se surpreender com outros caminhos
de entender que as flores são perfumes e espinhos.

Quem dera voltar ao tempo ou controlar o sentimento,
Usar um gesto de carinho como último argumento!

Hoje sofre, porque ontem temia sofrer
A visão turva de seus olhos enxaguados
não conseguem ver, não permitem ver...

André Muerto




terça-feira, 19 de novembro de 2013

QUERO O IGNORADO

“Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.”


Fernando Pessoa

sábado, 9 de novembro de 2013

DE EFEITO

Olhos atentos aos meus passos
Vozes apostam o meu desfecho
Rasgo meu peito e rompo os laços
Se fiz com amor, está bem feito.

Com o gosto amargo entre os lábios
Doente, desdenhei o leito
Mas a escuridão guia tolos e sábios
Se fiz com amor, está bem feito.

Os juízes e os vendedores de almas
choram escondidos, eu os respeito
Sangrando, colhemos traumas
Se fiz com amor, está bem feito.

Ignore o tudo, contemple o nada
mas morra e viva do teu jeito

Nunca ignore a voz da alma:
"Se fiz com amor, está bem feito."



André Muerto

terça-feira, 10 de setembro de 2013

MENSAGEM À POESIA

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta
noite ao seu encontro.

Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte
do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas
carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema;
contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares,
e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado
para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for
preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem… – que se
não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um
herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue
numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes,
que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se
devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça
dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no
entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma
aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por
outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de
esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa
estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um
homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um
grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há
vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir
covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua
imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.

Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-Ia
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as
poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me
impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso…
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada
adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação
extática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se…
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que
agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.



Vinícius de Moraes

terça-feira, 30 de julho de 2013

MEMÓRIAS INVENTADAS (TRECHO)

"Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim falou que só sabia que não sabia nada. Não tinha as certezas científicas. Mas aprendera coisas di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes."

Manoel de Barros

quinta-feira, 11 de julho de 2013

DIFÍCIL SER FUNCIONÁRIO

(Para Drummond)

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.


Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.


É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.


Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.


Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.


E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.


Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança


Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…


Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.


 João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 6 de junho de 2013

QUASE VIVO

À noite, descansa os pés
bufando as ofensas do dia.
Barco perdido entre as marés,
pensa que o norte é a morte fria.


André Muerto

sexta-feira, 17 de maio de 2013

PERDA, PERDÃO

A cada passo sem sucesso
Junto as minhas poesias falidas
Cuspindo letras eu expresso
as cicatrizes (ou feridas?)

E quando o remorso cala
vem a questão que condena:
"Ora, a vida é rara;
de mim não sinto pena."


Entenda, somos pedras
que o tempo apenas esculpe.

Me perdi em minha esfera,
me perdoe, me desculpe.


André Muerto

segunda-feira, 13 de maio de 2013

MANTRA DA CONVIVÊNCIA

Ver cada um como um espelho,
cada vida como um universo.
Perseverar e enfrentar o medo
de viver o amor na condição de verbo.
 
André Muerto

quarta-feira, 8 de maio de 2013

PAZ COM ASPAS

Os jovens apreciadores
dos bons costumes, da moral
Conectados, 
gozam a falsa liberdade.
Defendem o animal,

 matam o marginal,
com a boca que condena 

com o olho que arde.

André Muerto

segunda-feira, 6 de maio de 2013

NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam, .
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá. 


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 12 de abril de 2013

POEMA SE

Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia…


Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas…


Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser…


Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo…
Se algum ressentimento,


Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,


E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou…


Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio…


Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu…


Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia…


Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende…


Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim…


Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito…


Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz…


Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou…


Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.


Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.


Professor Hermógenes

quinta-feira, 11 de abril de 2013

ONTEM

O mais sensato dos meus fantamas
Acorda atrasado

Não questiona quase nada
Suspira um gozo
Chora por um bebê
Ri da própria desgraça
Ignora a tv

O problema de sonhar muito é que a gente acorda atrasado.

terça-feira, 26 de março de 2013

A VIDA SÓ É POSSÍVEL ATRAVÉS DOS DESAFIOS

“Era uma vez um fazendeiro que, após uma colheita ruim, reclamou: ‘Se Deus me desse o controle do clima, tudo seria melhor, pois parece que ele não entende muito de agricultura.’”
Isso é verdade! Ninguém jamais ouviu dizer que Deus é um fazendeiro - como ele poderia saber?
“O Senhor disse a ele: ‘Durante um ano eu lhe darei o controle do clima; peça o que você quiser, e seu desejo será concedido.’”
Antigamente, Deus costumava fazer isso. Depois ele se cansou...
“O pobre homem ficou muito feliz e imediatamente disse: ‘Agora eu quero sol!’, e o sol saiu. Mais tarde ele disse: ‘Que chova!’, e choveu. Durante um ano inteiro, o sol brilhava e depois chovia. As sementes cresciam, cresciam... era um prazer observar aquilo! ‘Agora Deus pode entender como se controla o clima’, ele pensou com orgulho. A plantação nunca antes havia crescido tanto, ficando tão verde, e de um verde tão saudável.
Chegou a hora de colher. O fazendeiro pegou a foice para cortar o trigo, mas sentiu um aperto no coração. Os caules estavam praticamente ocos.
O Senhor veio e lhe perguntou: ‘Como estão as suas plantas?’ O homem se queixou: ‘Pobres, meu Senhor, muito pobres!’ ‘Mas você não controlou o clima? As coisas não saíram como você queria?’
‘Claro! E é por isso que estou perplexo - recebi a chuva e o sol que eu pedi, mas não há o que colher.’
Então o Senhor disse: ‘Mas você nunca pediu vento, tempestades, gelo e neve, tudo o que purifica o ar e torna as raízes duras e resistentes! Você pediu chuva e sol, mas não pediu mau tempo. É por isso que não há o que colher.”’
A vida só é possível através dos desafios. A vida só é possível quando você tem tanto o bom tempo quanto o mau tempo; quando tem prazer e dor; quando tem inverno e verão, dia e noite; quando tem tristeza tanto quanto felicidade, desconforto tanto quanto conforto. A vida passa entre essas duas polaridades.

 

Osho

sexta-feira, 22 de março de 2013

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa, venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 4 de março de 2013

PARA BRUNA E RAFAEL

"Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade. 
Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
 Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril"

Fernando Pessoa

Obrigado, amigos!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Trabalho Para Memória

Com o tempo
o trabalho é o que causa a dor nas costas.
Quem esquece da apunhalada
ganha tempo para o que gosta.


Muerto

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

MISÉRIA FUTEBOL CLUBE

O sacrifício é o meu ofício
e eu ainda alimento os seus milhões.
Esqueço que a vida é difícil
entre vomitos e rojões.


No núcleo da cidade,
concentram-se os bairros nobres
e em suas margens descartam seu lixo
em suas margens descartam os pobres.


Então esqueço..

Eu esqueço o preconceito,
porque viver é esquecer.
O meu dever ou o meu direito
ignorados pelo poder.


Esqueço
do lar impregnado pelo cheiro do esgoto,
que a educação da miséria
é o nojo e o desgosto.


Esqueço
do abuso dos abutres;
dos defeitos e virtudes;
das vadias e seus truques.


Pro inferno os hipócritas e os seus conselhos.
Seus olhos não são os meus,
nunca caminharam com seus joelhos.

Nossas mentes foram contaminadas por realidades diferentes.
Miseravelmente felizes somos nós, "os doentes".


Muerto