sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A HIPOCRISIA DO AMOR PRÓPRIO

A natureza do amor-próprio e deste eu humano é de só se amar a si e de só se considerar a si. Mas que há-de fazer? Não saberia impedir que este objecto que ama esteja cheio de defeitos e de misérias: quer ser grande e vê-se pequeno; quer ser feliz e vê-se miserável; quer ser perfeito - vê-se cheio de imperfeições; quer ser objecto do amor e da estima dos homens e vê que os seus defeitos só merecem a sua aversão e o seu desprezo. 
Este embaraço em que se encontra produz nele a mais injusta e a mais criminosa paixão que é possível imaginar; porque concebe um ódio mortal contra esta verdade que o repreende, e que o convence dos seus defeitos. Ele desejaria aniquilá-la, e não a podendo destruir em si mesma, destrói-a, tanto quanto pode, no seu conhecimento e no dos outros, isto é, põe todos os cuidados em encobrir os seus defeitos, aos outros e a si mesmo, e não suporta que lhos façam ver, nem que lhos vejam. É sem dúvida um mal estar cheio de defeitos; mas é ainda um mal muito maior estar cheio e não os querer reconhecer, visto que é acrescentar-lhe ainda o de uma ilusão voluntária. Não queremos que os outros nos enganem; não achamos justo que queiram ser mais estimados por nós do que o que merecem: não é portanto justo também que os enganemos e queiramos que nos estimem mais do que merecemos. 
(...) A vida humana é apenas uma ilusão perpétua; o que fazemos é enganar-nos e iludir-nos mutuamente. Ninguém fala de nós na nossa presença como na nossa ausência.
A união que existe entre os homens é fundada sobre este mútuo embuste; e poucas amizades subsistiriam se cada um soubesse o que o seu amigo diz dele quando não está presente, ainda que ele fale então sinceramente e sem paixão.
O homem é apenas disfarce, engano e hipocrisia em si mesmo e para com os outros. Não quer que lhe digam a verdade e evita dizê-la aos outros; e todas estas disposições tão afastadas da justiça e da razão têm uma raiz natural no seu coração.


Blaise Pascal, in "Pensamentos"

domingo, 6 de novembro de 2011

LOUVOR DO ESQUECIMENTO

Bom é o esquecimento.
Senão como é que
O filho deixaria a mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
O retém para os experimentar.

Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.

Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena demais.

O fogão aquece. O oleiro que o fez
Já ninguém o conhece. O lavrador
Não reconhece a broa de pão.

Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso?

A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 25 de outubro de 2011

POEMA EM LINHA RETA

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
(…)
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Fernando Pessoa

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A UM CARNEIRO MORTO



Misericordiosíssimo carneiro
Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio
E em todo aquele que for seu herdeiro!


Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!


Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos – fontes de perdão – perdoaram!


Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia do Juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!


Augusto dos Anjos

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

DOIS LOBOS

Um índo cherokee falou a seu neto sobre uma batalha que se desenrolava dentro de si:
           "Meu filho, disse ele, "a vida é vivida entre dois lobos. Um é cheio de ira, inveja, dor, autopiedade, inferioridade, e superioridade. O outro é pleno de alegria, paz, esperança, humildade, bondade e fé".
            O neto perguntou ao avô: "Qual lobo vence?"
            O velho simplesmente lhe respondeu: " O que eu alimento".


 Nancy Mellon

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

TODO DIA


O dia é teu também, ateu.
Ateu no dia que convém;
Ateu que um dia disse amém!
Ateu num dia sem desdém,
é um que o dia vai além.


André Muert0



O essencial é saber ver, mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida, isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender.
Eu prefiro despir-me do que aprendi, eu procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desembrulhar-me e ser eu.

(Alberto Caeiro)



sábado, 1 de outubro de 2011

FELIPE


Corremos como cavalos selvagens.
Às vezes corremos sem saber para onde, seguindo nossos sentimentos...
E assim como os cavalos, sentimos quando alguém está com medo.
Por dentro daquele olhar fixo e, talvez desinteressado,  predominam incontáveis universos
São presentes, maravilhas que uma vida (bem vinda) traz consigo
Porém, numa carruagem de desavenças, nos passos que fraquejam num caminho
cujo o rumo é o precipício,
surge uma luz,  uma vida.
Tão bela e tão certa quanto as estações do ano;
Trazendo consigo a beleza da primavera, em pleno inverno.
Ah! a pureza dos teus gestos como bálsamo para as minhas feridas!
Distante de mim, mas dentro do meu coração.
Você, meu amor, que agora inspira sorrisos e expira pureza;
Como dizer que você é meu, se eu sou todo seu?
Nós, aqui de fora
Os pseudos donos das regras e das verdades;
Nós ainda corremos como cavalos selvagens
E você, “O que ama cavalos”- não permita que as rédeas da ignorância o prendam
O amor está em você, porque, como você, ele surge como uma luz
Que elimina a escuridão e guia nossos passos
Que torna o nosso caminho mais belo
Que talvez  um dia, traga de volta essa pureza 
Que trouxemos quando chegamos, mas
que perdemos enquanto caminhamos.

André Muert0

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

DOWNLOAD ME?

Recentemente, acreditei estar apaixonado pela tua beleza, mas cada comportamento, cada expressão, me afetam maravilhosamente bem. 
Quando mergulho nesse mar de bites e pixels, navego até você. Me afogo em tuas palavras e nado até as suas imagens. 
É aí que descubro que existe uma conexão perfeita entre a tua beleza e a beleza da tua alma.
Mesmo distante, agradeço por me proporcionar este sentimento tão esquecido dentro de mim.




André Muert0

terça-feira, 2 de agosto de 2011

APRENDIZADO

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.


Ferreira Gullar

domingo, 26 de junho de 2011

MENOS

Mais dinheiro para consumir mais

Mais diversão para cegar mais

Mais contos para controlar mais

Mais tecnologia para facilitar mais


Mais luxo para se destacar mais

Mais pobreza para explorar mais

Mais patriotismo para diferenciar mais

Mais mortes para dominar mais


Mais dinheiro para a máquina de fazer lixo

Mais imagens para cavoucar algum sentimento nela

Mais regras para impor a melodia

daquele instrumento que elimina o argumento


Mais ciência para viver mais

para buscar mais

para ganhar mais

para ter mais


Mais dinheiro para ganhar mais dinheiro

Mais entretenimento para entender menos

que o que adicionamos foi a subtração

Somos o verdadeiro prejuízo, almas vendidas pela ambição.


ANdré Muert0

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

MEDO DO NÃO

A política e a arte do ladrão
Todo dia, na televisão
Justificam a falta do pão
Por não saberem o que é a fome do cão

A insanidade diz que o mundo é são
Quando anunciam nova construção
A cada ano, uma nova religião
Desenhando uma falsa revolução

A pobreza inocente crê em vão
Que o suado dinheiro compra salvação
Enquanto ora ao lado do irmão
Ou morre aos poucos, por causa do "não"

Brotando o sonho e alguma ficção
De coisas boas que um dia chegarão
Nunca questionam a tal explicação
Dão velocidade, mas não dão direção

E aí nasce mais uma ilusão
A rebeldia vivendo a poluição
Cega de ódio, logo perde a noção
Em suas veias, um pouco da podridão

Mas não teve culpa desde então
Ao perfurarem seu coração
Com preconceito e contradição
A tempestade menor que o trovão

A felicidade é uma interrogação
Quando se esquece da evolução
Se julgam, moldam a opinião
Se opinam, criam a decisão

A verdade cala a multidão
É meu e seu; é nosso quinhão
Não veem a luz, os "donos" da visão
Não veem a chance, os filhos da ingratidão.

Muert0