domingo, 28 de junho de 2020

PRAGA URBANA

Caminho impacientemente
Busco espaço nas calçadas
Mesmo fatiando o aglomerado
Sobrevivo às canções de venda
E ao hálito pútrido das falas cheias de preconceito
Mas é inútil ignorar as mordidas
E os latidos da cadela luso-italiana
Que há tempos se exalta sobre essas terras
Pessoas uniformizadas discutem o clima e o amor
Forjam suas frustrações em ferro fajuto:
Desculpas na tentativa de acorrentá-lo
Chicoteados pelo som que ecoa nos quarteirões
Todos são conduzidos por grandes letreiros
Que sugerem o que supostamente é bom e melhor
Então engulo meu pavor, um vômito azedo
O alívio surge nos pombos entre a multidão
Eles devoram os restos de qualquer coisa
Interessados apenas na imundície
Esbanjam o quanto temos em comum
Mas desconhecem nossos sonhos e aflições
Nossa excelência em sermos
Fábricas de pudores e rótulos
Nós, a legítima praga urbana.

Morto







sexta-feira, 26 de junho de 2020

NOTA

Enxugo tua face com estas palavras.
Elas não acalentarão a tua alma,
pois a desilusão é o vento frio e cortante
que guia até o sol complacente.
Uso-as para te dizer que o amor não existe;
não desta maneira que insiste em cultivá-lo,
plantando-o em solo infértil.
Por inúmeras vezes também caminhei neste deserto,
e sentir meus pés queimando parecia ser um preço pífio a se pagar.
Mas o tempo puniu a minha insistência febril.
Ensinou o amor como essência da natureza,
amor de raízes sólidas.
Amor, a flor oriunda da semente inesperada,
que desistiu de ser regada por lágrimas
mas que germinou ao ser tocada pelo orvalho do carinho, da empatia.
Amor, a quimera que o poeta não pôde ousar.
A mão que afaga
e se nega a apedrejar.

Morto

quinta-feira, 11 de junho de 2020

MOFO


O mofo está satisfeito
Com a ausência de luz
Se sente abraçado
Por ser essencial e cultivar
Tantos pensamentos microscópicos
Crescer, casar, tornar-se bolor 
Fazer tour pelos lábios
Conhecer palato e salivas
Enviar seus filhos esporos
Para viagens nasais
Ser reconhecido pelos ácaros


O mofo detesta o ar fresco
A água límpida e a luz do sol
Se conforma com a lágrima caída
Que torna o ambiente úmido 
Perfeito e confortável
A tal limpeza da autorreflexão
É nociva, assim como
Assumir as possíveis tonalidades
Verdes de outros mofos


Onde não há movimento
Onde o ócio reside
Onde o contato evita
Surge o mofo
Contando a piada
Da vida parada

Alguém ri


Morto