domingo, 23 de agosto de 2009

DIAS VAZIOS

Alguns dias são tão vazios que nem a tristeza consegue preenche-los.
O relógio se congela e só o ponteiro dos segundos funciona, afinal, não importa se é dia ou noite, se está frio ou calor.
Se um pensamento começa a se formar, logo se desmancha; o pensamento que começa a se fixar fica livre de qualquer sentimento.
Num dia vazio, a melhor ou a pior das lembranças não é digna nem de uma lágrima, nem um suspiro pode acompanha-la.
È oco e indiferente.
Sem ânimo, sem desanimo, sem vida e sem morte.
Sem eu, sem você e sem ninguém.
André Muerto

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O QUE RESTA É O PENSAMENTO



Você degusta um pouco do sabor da dor... e o que resta é a síntese dos seus conceitos sobre o que é bom ou ruim.
Você provou um pouco do amor... e o que resta são esperanças, algo que atinja os seus objetivos, expectativas.
Você mergulha na dúvida, na loucura, no que os outros costumam rejeitar... e o que resta são alguns amigos, poucos companheiros de uma longa viagem.
Se você conseguir olhar para dentro de si, verá que existe um universo que não pode ser explicado apenas com palavras, verá que o que resta disso tudo é só o que você pensa.
O que resta é o pensamento.

André Muerto

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A MENTIROSA LIBERDADE

"Comecei a escrever um novo livro, sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma – como se fosse algodão-doce colorido. Com ele chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não estar bem enquadrados, medo de não ser valorizados pela turma, medo de não ser suficientemente ricos, magros, musculosos, de não participar da melhor balada, do clube mais chique, de não ter feito a viagem certa nem possuir a tecnologia de ponta no celular. Medo de não ser livres.

Na verdade, estamos presos numa rede de falsas liberdades. Nunca se falou tanto em liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas, que constituem o que chamo a síndrome do "ter de". Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher com calma. Medicados como somos (a pressão, a gordura, a fadiga, a insônia, o sono, a depressão e a euforia, a solidão e o medo tratados a remédio), cedo recorremos a expedientes, porque nossa libido, quimicamente cerceada, falha, e a alegria, de tanta tensão, nos escapa.


Preenchem-se fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo risco e extravagância, e nos ligamos no espelho: alguém por aí é mais eficiente, moderno, valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor que o meu? Em fileira ao longo das paredes temos de parecer todos iguais nessa dança de enganos. Sobretudo, sempre jovens. Nunca se pôde viver tanto tempo e com tão boa qualidade, mas no atual endeusamento da juventude, como se só jovens merecessem amor, vitórias e sucesso, carregamos mais um ônus pesadíssimo e cruel: temos de enganar o tempo, temos de aparentar 15 anos se temos 30, 40 anos se temos 60, e 50 se temos 80 anos de idade. A deusa juventude traz vantagens, mas eu não a quereria para sempre: talvez nela sejamos mais bonitos, quem sabe mais cheios de planos e possibilidades, mas sabemos discernir as coisas que divisamos, podemos optar com a mínima segurança, conseguimos olhar, analisar e curtir – ou nos falta o que vem depois: maturidade?

Parece que do começo ao fim passamos a vida sendo cobrados: O que você vai ser? O que vai estudar? Como? Fracassou em mais um vestibular? Já transou? Nunca transou? Treze anos e ainda não ficou? E ainda não bebeu? Nem experimentou uma maconhazinha sequer? E um Viagra para melhorar ainda mais? Ainda aguenta os chatos dos pais? Saiba que eles o controlam sob o pretexto de que o amam. Sai dessa! Já precisa trabalhar? Que chatice! E depois: Quarenta anos ganhando tão pouco e trabalhando tanto? E não tem aquele carro? Nunca esteve naquele resort?

Talvez a gente possa escapar dessas cobranças sendo mais natural, cumprindo deveres reais, curtindo a vida sem se atordoar. Nadar contra toda essa louca correnteza. Ter opiniões próprias, amadurecer, ajuda. Combater a ânsia por coisas que nem queremos, ignorar ofertas no fundo desinteressantes, como roupas ridículas e viagens sem graça, isso ajuda. Descobrir o que queremos e podemos é um bom aprendizado, mas leva algum tempo: não é preciso escalar o Himalaia social nem ser uma linda mulher nem um homem poderoso. É possível estar contente e ter projetos bem depois dos 40 anos, sem um iate, físico perfeito e grande fortuna. Sem cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis, como nos ordenam os mitos e mentiras de uma sociedade insegura, desorientada, em crise. Liberdade não vem de correr atrás de "deveres" impostos de fora, mas de construir a nossa existência, para a qual, com todo esse esforço e desgaste, sobra tão pouco tempo. Não temos de correr angustiados atrás de modelos que nada têm a ver conosco, máscaras, ilusões e melancolia para aguentar a vida, sem liberdade para descobrir o que a gente gostaria mesmo de ter feito."

-
Lya Luft

terça-feira, 12 de maio de 2009

A RUA DOS CATAVENTOS

Da primeira vez em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Mario Quintana

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A MENSAGEM

Devolve os pobres olhos que eu perdi
E que te habitam, desde que te vi.
Mas se eles ja sofreram tal castigo
E tantos danos,
Tantos enganos,
Tal rigor,
Que a dor
Os fez inúteis, guarda-os contigo.

Devolve o coração que te foi dado
Sem jamais cometer qualquer pecado.
Porém, se ele contigo ja aprendeu
Como se mata
E se tortura
Uma alma pura,
Guarda, também, esse ex-pedaço meu.

Melhor, devolve olhos e coração,
Para que eu possa ver a traição,
E possa rir, quando chegar a hora
De te ver
Padecer
Por alguém
que tem
Um coração como o que tens agora.

-
John Donne- traduzido por Augusto de Campos

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Blues da Diligência

Na Malicia do Blues
Quem me dera
Ser um eterno sonhador
Um feliz Lunático
Na luta contra o fervor
E nesse preciso e tão belo
Negro amor.

Nas entranhas poéticas
Desse Blues da diligência
Ouvem-se Cordas em solo
Ouvem-se ruídos inquietos
Sussurros gemidos
Dos corpos unidos.

Primeiro faça-se o silêncio
Depois que vem a luz
Nascemos do amor cego
Do sangue derramado na cruz
E da imperfeição do Deus mais “perfeito”
Que assim como eu também erra

Mesmo com essas dúbias certezas
Ainda lutamos na busca de um ser complementar
Sabendo o que nos leva a continuar
Não é a clareza das respostas
E sim a sombra que paira sobre as perguntas

-
Edilson Monteiro Neto (Monteirovisky)

segunda-feira, 30 de março de 2009

NOTURNO

Enxergo-te no costume pagão
Pelas belezas de sua água ardente
De embaralho e discursos
Dos seus gestos palidicentes

És noturno, és grande!
Porque é e não nega
Não procuraste Guerrear
Mas nunca fugiste sem lutar

Não carrega o medo de errar
Mesmo a repetência a incomodar
Análises e formas de pensar.

Não estou apenas a julgar
Qualquer outra forma de sugerir
Não estou só a respeitar
Os laços genéticos que nunca escolhi
Não estou só a perceber
A foice que joga longe
Mas a perceber que do corte renasce
Outra forma de andar.
Carregue esta promessa
Antes à não ouvir vozes externas
Porque aquilo que cala não te cessa.

Monteirovisky

sábado, 28 de março de 2009

INFERNO NO INVERNO


Tentaremos ver e tentaremos conter...
Salvaremos o mundo de nós mesmos.
O mundo dos amores perdidos;
O mundo dos enganos e coincidências;
O mundo dos reinos imundos.
Mortos ou vivos?
Nós somos os verdadeiros cadáveres se importando com os vermes que nos corroem, sem saber o que corroemos.
Contamos o tempo e nos perdemos nele... se descobrirmos o agora, o agora é tarde.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009


"O amor nunca morre de morte natural. Morre porque nós não sabemos reabastecer sua fonte. Morre de cegueira, erros e traições. Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, das devastações e da falta de brilho." (Anais Nin)