terça-feira, 21 de abril de 2020





— Hilda Hist, no livro "Do Desejo".

domingo, 19 de abril de 2020

NECROPOESIA

Poesia é ficção? Poesia é confissão?
Pois então...



Esquartejei um poema
Ao decepa-lo
Comecei pela jugular
Pois na introdução
Se encontravam as frases doces

Sequei o suor em minha testa
O rigor mortis das palavras
Formando discursos indiretos
Me causavam certa fadiga
Fui incentivado pelos abutres
Que triangulavam o céu
Com sua fome de prosa, poema
Poesia de segunda

Dissecar orgãos vistosos
Cheios de metáforas
Arrancar suas tripas com os dentes
Sentir as rimas esguichando
Tantas mentiras, tantas mentiras
Era sentir o fluído da vida

Depois de estripado
Um certo odor,
Um ruído incomodava:
Eu, eu, eu 
Pronome preso no esfíncter
Tumor do ego não diagnosticado
Principalmente em poemas vivos

Quando não podia mais soletrar
Fui poupando alguns tendões
Músculos de ódio
Cartilagens de paixão
Era o fim,
assim como eu
A navalha estava cega.



Morto



sexta-feira, 17 de abril de 2020

Amig0s

A vida social
É um atleta disputando a corrida
Na linha de chegada
Rasgou a fita e disse:
-Eu estou cansado!




Morto

MORTO(S)

Estão mortos, 
Estão todos mortos
Enterrados com suas histórias de amor
Contemplam agora as flores do além:
abraços-não-dados
Mas, antes de serem degolados
pelo ponteiro do relógio
Admiravam a complexidade humana
O dom de se sentirem menos dignos
que fungos e cupins.
Culpavam Mercúrio
Pelo redemoinho de ideias
Que depois se condensariam
Em torrenciais de vogais.
E os que aqui ficaram
Acorrentados aos aspectos forenses da morte
Encaixotam as heranças deixadas,
Poesias, rabiscos
Artes Inúteis aos seus olhos
Que nada mais faziam do que retirar
Escamas e mais escamas da dor
Além da péssima analogia à terra
que o suposto autor fazia
Ao descrever a erosão em seu peito.
Quem poderia acreditar
Que o amor cravou as unhas
Em seu couro cabeludo, obrigando-o
A engolir pétalas de flores amarelas?
Os mortos também deixaram
Memórias descritas em tinta peculiar
invisíveis para alguns - leia-se lágrimas;
melodias dissonantes e receitas
De como triturar sentimentos
Compor gargalhadas em dó maior
Para o óbito diário
De todas as suas personas

Morto

quarta-feira, 8 de abril de 2020

SINGULAR (INCOMPLETO)

Um farol para o barco
Uma prece para o pranto
Um sol para a planta
Uma lanterna para o espanto

Um desejo para o artista
Uma esperança para o infante
Um pedido para o teísta
Uma quimera para a amante

Um universo para uma sílaba
Uma semente para a terra
Um amor para um dia
Uma eternidade para o poeta

Morto

domingo, 5 de abril de 2020

EMPATIOFOBIA

Já não podes conviver
com a própria sombra.
O outro não existe;
amor é colírio inútil
para tua cegueira.
Reflete apenas
sobre a própria chaga
"Ah, que mundo horrível
Roubaram-lhe a alma!"
-balbuciam os fármacos bicolores
em teus ouvidos, todas as noites.
Tuas entranhas decoram fluídos alheios,
combústíveis do ego monstro
que lhe devora de dentro para fora.
E assim, insiste em rastejar,
ignorando que és carrasco, réu
e guilhotina.


Morto

sábado, 4 de abril de 2020

RECLUSOS

Valhala tupi,
valas e mais valas.
A terra esburacada
descansa em quarentena.
Em suas posições,
moscas e vermes
seduzidos pela cadaverina,
aguardam o aval
do tempo carniceiro:
1,2,3 (mil)
e jaz

quarta-feira, 1 de abril de 2020