domingo, 19 de abril de 2020

NECROPOESIA

Poesia é ficção? Poesia é confissão?
Pois então...



Esquartejei um poema
Ao decepa-lo
Comecei pela jugular
Pois na introdução
Se encontravam as frases doces

Sequei o suor em minha testa
O rigor mortis das palavras
Formando discursos indiretos
Me causavam certa fadiga
Fui incentivado pelos abutres
Que triangulavam o céu
Com sua fome de prosa, poema
Poesia de segunda

Dissecar orgãos vistosos
Cheios de metáforas
Arrancar suas tripas com os dentes
Sentir as rimas esguichando
Tantas mentiras, tantas mentiras
Era sentir o fluído da vida

Depois de estripado
Um certo odor,
Um ruído incomodava:
Eu, eu, eu 
Pronome preso no esfíncter
Tumor do ego não diagnosticado
Principalmente em poemas vivos

Quando não podia mais soletrar
Fui poupando alguns tendões
Músculos de ódio
Cartilagens de paixão
Era o fim,
assim como eu
A navalha estava cega.



Morto



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