segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Pés no chão

Desça das nuvens,
sonhos são como miragens.
Alguém disse
que o passado é um sapato
que não lhe serve mais,
mas nos momentos de ócio
você esquece das enfermidades,
esquece das bolhas em seus pés
e volta a caminhar com eles.
Quando se dá conta
era a apenas a solidão murmurando
um abraço medíocre,
ou uma mentira em forma de poesia
escrita porcamente num papel 
escondido na gaveta,
sob um livro antigo e empoeirado,
devorado diariamente
por ratos que defecam os versículos
que um dia te aconselharam
a perdoar 490 vezes.
A vida segue.
Amanhã o sapato apodrecerá
e o futuro será cuidar do futuro,
alimentar o sonho comum
até ser aceito por todos,
até desenvolver o costume 
de masturbar sua mente
com o otimismo dos bilhetes de loteria.
Ser aceito por todos:
Rir dos acidentes, 
punir o ladrão,
trair o coração,
beber o pranto
enquanto degusta o pão envelhecido.
Ser aceito por todos:
Descer das nuvens
e finalmente
ter os pés no chão.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

(i)mundo

Apague seu cigarro.
Não vê que todos estão
sempre certos 
do que fazem?
Não há brecha,
não há um "porém",
não há uma vírgula.
Para cada barbárie,
uma justificativa
e por isso a exceção
é tão invisível
quanto a lágrima de uma mãe.
Apague seu cigarro
porque o mundo 
é uma caixa de fósforos
esperando ser queimada.




terça-feira, 5 de outubro de 2021

A flor

A flor é bela 
Porque oferece o seu perfume

Para aquele que se aproxima
Para aquele que cuida
Para a mão que a arranca do solo
Para o vento que a despedaça

A flor ensina
Porque oferece o seu perfume

quinta-feira, 22 de julho de 2021

ROTINA

Todo dia a rotina ameaça pular de um prédio.
Chegam as ambulâncias;
Os inseguros afastam as pessoas,
os acomodados observam nas calçadas,
o repórter adicto anuncia nas redes e no telejornal.
Mas a rotina é imortal.
Se atira rumo à morte
para se desfragmentar no solo da vida.
Quando se esconde no canto dos pássaros,
quando é recebida pelo acaso;
quando, por acaso,
o céu muda de cor
e uma borboleta-azul pousa nos dedos do tédio.
A rotina foi salva
pela grandiosidade das pequenas coisas.

Morto

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Eras apenas um náufrago

devorado pela imensidão do mar,

desdenhando a luz do farol.

E por isso a vida riu de ti.

Pois a saudade é só uma palavra riscada na areia

que se apaga com as ondas do tempo.

Aos poucos,

aos poucos.

domingo, 2 de maio de 2021

EXPECTATIVA

Quanta insignificância pode haver
No lavrar da expectativa
Que hoje é ouro e amanhã poeira
A sorte dança ao som dos estalos
Na articulação desta mão
Que cultiva uma semente estéril:
Se amanhã for flor, será digno de amor
Se amanhã for dor, será o túmulo do ego
Então o semideus será verme
Resto do resto
Preso nas frestas
Perdido nos dentes encavalados
Do tempo predador

Morto

terça-feira, 13 de abril de 2021

 

Ontem a tosse me disse
Que a alma estava engasgada
Com seu pranto mudo
Com sua lágrima - muco
Não havia como expelir a dor
A esperança coagulada se tornou medo
E depois viajou até os pulmões
Fazendo dos brônquios teias
Imergidas pela tristeza asmática
A alma estava doente
Mas havia um coração
em meio à rouquidão do peito
Hoje, quando esta cessa
Me silencio com a questão
Que desprezo como um pigarro:
"Haverá fôlego para o amor?"


Morto