É tarde, as luzes amarelam a rua
Entre as risadas e os ruídos dos copos
Ouço alguém dizer "verdades".
Sua língua tropeça na pronúncia das tais teorias
mas ainda há firmeza no que diz.
Ouço os contos que descascam o mundo
como um fruto cujo o sumo é amargo
um fruto de sementes ocas, sem esperança
Ouço teorias sólidas
criadas por almas alvas de olhos imundos
-Ou vivemos num mundo de almas imundas?-
Se é assim, por que há recomeço depois do fim?
Por que há recomeço?
Esta rua amarelada é testemunha:
São tantas palavras
metralhadas pelos papagaios diplomados
que ecoam as verdades dos que se foram.
Mas eu já li isso antes
Já ouvi isso antes
Conheço a podridão
dentro de mim
dentro de nós
Mas eu prefiro a minha ilusão
conquistada vivendo verdades e mentiras
Eu não tenho argumentos
mas gostaria que esses que buscam a verdade
Pudessem admirar os olhos de um bebê
É um brilho único, uma verdade que posso ver
Uma poesia que posso sentir.
Talvez eu seja mais um cego
que quando vê a mão que se estende
não pensa se ela já agrediu
porque é como a vida a apresentou para mim
naquele breve momento
Quando eu vejo a rua amarelada sendo machucada
pelas cinzas e cacos; pelo lixo humano
Sei que amanhã ela estará limpa
Sei que ela já esteve limpa
São as verdades da rua
Eu as conheço
então eu posso escolher
qual eu devo contemplar.
André Muerto
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