terça-feira, 28 de julho de 2020

NOTAS SOBRE A VERDADE


A verdade envelhece e
oculta sua face carcomida.
Usa um capuz dourado sobre
um tecido colado em feridas secas.
Um véu estrelado cobre seu pescoço, 
ocultando hematomas e arranhões.

A verdade carrega um saco rústico,
amarrado aos seus dedos leprosos,
suas pontas se arrastam no chão
como se carregasse crucifixos pontiagudos.

A verdade tem voz rouca,
suas cavidades pressionam o fole
que mal pode apagar uma vela,
mas a potência de sua risada é
de uma criança que ri
quando o adulto esconde seu rosto.

Os que se aproximam da verdade
contam que seus bolsos estão cheios de cartas amassadas,
escritas com lápis de cor,
se referindo à inocência do amor.

A verdade é anêmica, sente fome e sede.
Sua pele é grampeada às costelas curvas como pernas de moscas.

Os dentes alojados no estômago da verdade, assim como seus joelhos esfolados,
registram suas múltiplas quedas.

A verdade vagueia nas beiras dos córregos vermelhos,
trincados no globo ocular daqueles que se arrependem.

A verdade vê seu reflexo nos espelhos quebrados, nas cicatrizes dos punhos, nas portas dos orfanatos.

A verdade mora na sombra da árvore sobre o túmulo do ego.

A verdade rega suas flores com a chuva.

A verdade morre todos os dias,
mas ressuscita depois do gozo e do pranto.

A verdade renasce na carne ensanguentada, nas batidas do coração, na saliva do esfomeado, no agradecimento sincero e, sobretudo, nos pedidos de perdão.

A verdade é a única que pode libertar.

Morto

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